Partilhamos o artigo de Opinião do Professor Doutor Sérgio Deodato, docente da Escola de Enfermagem (Lisboa) do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa publicado no Jornal Público.
"Mostrar a morte"
"Cuidadosamente preparadas, as imagens que têm sido divulgadas do Papa Emérito Bento XVI, no leito de morte, tranquilo, são das melhores mensagens que o Vaticano nos podia oferecer neste início do ano.
Estamos a assistir, nos media, à divulgação das imagens do Papa Emérito Bento XVI, no seu leito de morte. Percebe-se que são imagens cuidadosamente preparadas e, do que tenho assistido, rigorosamente tratadas pelas televisões. Trata-se de algo que deve merecer a nossa reflexão. Não apenas por se tratar de um líder mundial que se apresenta como falecido, mas por tratar-se de um ser humano morto.
Sabemos que a transmissão televisiva do ser humano morto, de acordo com a ética da comunicação social, reveste contornos especiais, habitualmente optando-se pela ocultação da identidade, nomeadamente do rosto, da pessoa em causa. Mas aqui, nas imagens que nos chegam do Vaticano, o Papa Emérito é-nos mostrado na totalidade do seu corpo. Com alguma distância quanto ao rosto, mas com uma grande nitidez das suas mãos envelhecidas. Temos a imagem de uma Papa velho, tranquilo e morto. Trata-se, por isso, das melhores mensagens que o Vaticano nos podia oferecer neste início de ano. No respeito pela memória de quem teve a coragem humilde de autoavaliar a sua finitude, retirando-se quando entendeu ser o tempo de terminar o seu trabalho, ou melhor, a sua responsabilidade pública, somos agora contemplados com a coragem de uma Instituição que mostra ao mundo o seu líder falecido. (...) "