Iniciei o meu percurso na ainda Escola Superior de Enfermagem de São Vicente de Paulo (ESESVP), em 2006, já integrada na Universidade Católica Portuguesa (UCP), terminando-o em 2011, na altura no polo de Sintra.
Foi um percurso de extrema exigência, que me permitiu, nos quatro anos da licenciatura, adquirir e desenvolver competências teóricas e técnicas essenciais para o cuidar integral da pessoa, inclusive em ambientes de alta performance, como é característico dos hospitais e, mais especificamente, do contexto desportivo. Esta exigência permitiu-me estar e ser competente em ambientes de elevada exigência, como os cuidados intensivos ou mesmo o Campeonato da Europa de Sub-17 de 2025, onde acabámos por sair vencedores.
Ser Enfermeiro, em qualquer que seja a área de intervenção, é de uma relevância incalculável, pois os seus ganhos em saúde para a pessoa (atleta), família e comunidade são gigantes e inequívocos.
Apenas com bons alicerces, independentemente do restante percurso académico e/ou profissional, se poderá desempenhar uma intervenção assertiva e eficiente em Enfermagem — e o papel da ESESVP / UCP foi, sem dúvida, fundamental para o meu percurso até ao momento.
Maria João CC Reis Alves
Enfermeira Diretora
Direção de Saúde da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
O início deste percurso foi em 1990, na Escola Superior de Enfermagem de São Vicente de Paulo, transmitida em 2006 para a Universidade Católica Portuguesa e assumindo o nome de Escola de Enfermagem (Lisboa). Foi realmente um tempo extraordinário. Era jovem, com muitos sonhos, expetativas e uma inquietação serena que me fazia querer abraçar uma profissão e, ao mesmo tempo, o mundo. Procurava um caminho que me permitisse sentir profundamente a vida e queria colocá-la ao serviço dos outros. Queria dar o melhor de mim e descobrir, através do cuidado, quem verdadeiramente era. Assim encontrei um amor para a vida! Tem sido uma companhia.
Na escola encontrei os melhores “mestres”, ainda hoje habitam na minha memória e no meu coração. professores cuja competência, conhecimento e humanidade permaneceram como referências sólidas e exemplos de excelência que me acompanham e me motivam. Muitos dos estágios que realizei, nesse período, continuam vivos em mim, recorro a essas memórias como pilares que me sustentam, recordo-os com uma nitidez impressionante, como se tivessem acontecido ontem, apesar de terem passado mais de trinta anos.
Foram experiências que moldaram o meu olhar e anteciparam, de forma quase profética, muitos dos desafios e aprendizagens que encontraria ao longo do caminho. Houve momentos de enorme exigência, de dúvida, de desalento e de esforço. Foram as inevitáveis dores de crescimento que acompanham quem escolhe construir-se do lado de dentro da profissão de enfermagem, profissão esta, que tanto nos dá e que tanto nos pede.
Descobrir o corpo humano, na sua extraordinária complexidade e na sua sempre assombrosa perfeição, revelou-se uma fonte inesgotável de fascínio que me impulsiona para um conhecimento contínuo. Cada resposta encontrada abre sempre espaço para novas perguntas. Mas foi sobretudo o encontro com a pessoa em situação de doença, sofrimento ou desamparo que foi verdadeiramente transformador. Estar ao lado de alguém perante a incerteza, a dor ou a proximidade da morte levou-me muitas vezes ao limite das minhas emoções e confrontou-me com territórios desconhecidos e imprevisíveis da condição humana. Compreendi então que cuidar do outro é sempre, de alguma forma, cuidar de nós próprios. A vulnerabilidade de quem sofre torna-se um espelho onde nos reconhecemos na nossa própria humanidade, mas também nos torna conscientes e próximos da fragilidade da vida. Mas a enfermagem também pode manifestar-se, numas mãos que trazem uma nova vida ao mundo, num choro que irrompe e ecoa por todo o universo, numa folha em branco onde se vão desenhar histórias, abrem-se horizontes para um mundo de possibilidades.
Têm sido anos intensos, profícuos e profundamente transformadores. A enfermagem não é apenas uma profissão, ela molda-nos por dentro, impacta e influencia a maneira como construímos relações, como escutamos, como compreendemos e até como amamos. Ajudar as pessoas a viver melhor, a encontrarem recursos para cuidarem de si próprias tornou-se um propósito que tem orientado a minha vida, fiz disso um desígnio nas diversas áreas em que trabalhei na comunidade.
Anos, depois daquele importante início, regressei à Escola de Enfermagem (Lisboa) da Universidade Católica para me especializar em Saúde Infantil e Pediatria. Reencontrei -me em Casa, e revi-me nos rostos, nos afetos e nos valores que outrora me acolheram, despertando em mim sentimentos de identificação e de pertença . As instituições são importantes, prestigiantes e inspiram confiança, sem dúvida, mas são as pessoas que lhes dão alma e significado.
Hoje ocupo um lugar de grande responsabilidade, como Diretora da Direção de Saúde da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, instituição secular de cariz humanista e, como tal, irmã da Universidade Católica nesses valores. Tenho plena consciência do compromisso de liderar e representar tantas equipas de profissionais dedicados. Reconheço que os desafios são exigentes, mas procuro, todos os dias melhorar, permanecer fiel aos valores fundadores que me foram transmitidos desde os primeiros passos na enfermagem: o respeito incondicional pela dignidade humana, a integridade, a competência, a construção do conhecimento, a compaixão, o compromisso e o serviço.
E, se pudesse resumir em poucas palavras aquilo que a enfermagem significa para mim, diria que tem sido muito mais do que uma profissão. Tem sido uma escola de conhecimento e de humanidade, uma travessia por histórias de vida marcantes com o privilegio de ter feito parte de tantos caminhos . Tem sido o lugar onde aprendi que a verdadeira grandeza se encontra na proximidade e tantas vezes na simplicidade de um olhar, que o conhecimento só ganha sentido quando colocado ao serviço da vida e que cuidar continua a ser uma das mais belas formas de amar e de existir. Afinal, mais de três décadas volvidas, continuo a sentir o mesmo deslumbramento daquela jovem que entrou na escola em 1990, cheia de sonhos. A diferença é que hoje sei que os maiores sonhos não são os que realizamos sozinhos, mas aqueles que construímos na vida dos outros.
“Quando toda a vida te doer até ao limite do que podes suportar, será ,precisamente ,nesse momento, que quero estar contigo”.